terça-feira, 30 de julho de 2013
o banho
"Começou então a perceber como era fácil imitar. Imitava as vozes de rappers intimidadores com caras de maus e com voz também de maus, cantava músicas de um modo diferente, músicas conhecidas, já consagradas, e que algumas eram ainda aquelas escolhidas pelos eleitos como as de contramão a cultura vigente, músicas que diziam em suas letras frases dos oprimidos, músicas que alertavam as falhas do sistema, músicas portanto, alternativas, mas que se misturavam ao gosto comum das TVs e dos rádios de grande produção. Tudo cantado em outras versões com voz estranha e vigorosa. Imitava, ao mesmo tempo que cantava, também os deficientes mentais com alto comprometimento intelectual, de modo que retorcia a face e as mãos fazendo caretas de modo parecido que os comprometidos intelectualmente fazem sem querer. Puxava a boca para um lado, os braços, fazia-os curtos como os de um tiranossauro, porém retorcidos, também retorcia todo o tronco e mostrava os dentes, de modo a parecer um monstro, e também ao mesmo tempo que soltava gemidos, ganidos e gritos ora agudos, ora graves, parecia dançar talvez, recuperava em si os hieróglifos naturais artísticos de culturas tribais as quais para se representar no mundo utilizam a dança e fazem do corpo o seu próprio instrumento, e era isso o que ele fazia, nu, enquanto a água quente do chuveiro caía percorrendo-lhe todo o corpo. Parecia inventar idiomas. Exprimia onomatopeias que talvez pudessem ser invejada pelos loucos, se estes porém, pudesse se dizer que, tivessem esta faculdade. Todavia, de modo súbito, assumia uma face dócil e límpida como a de um anjo, ou quase como a de um anjo, nesse momento seu aspecto era sério, normal e cerimonioso, como se esquecesse o que acabara de ocorrer, aquela luxúria de representações imitativas era esquecida. Rolava o sabonete pelas mãos. Encontrava-o liso e deixava-o cair, exprimindo sonora indignação.Terminava o banho, secava-se. Preparava-se para dar sua aula. Sabia que as mesmas mãos que ofertavam o pão, masturbavam o pênis. O pênis, objeto cilíndrico, e roliço era massageado então vagarosamente por estas mesmas mãos que agora o cumprimentavam, ainda que ele nunca houvesse deixado de cumprimentá-los por este fato, visto que a ação do banho é de fato eficiente. Porém a imagem, as palavras e os objetos eram de fato uma certeza para ele, assim como o quebra-cabeça que para ser formado completamente, é preciso que suas peças estejam no seu próprio lugar e não em outro. Pensava então em como o homem se intrometia em cada enrascada! Em cada bobagem! Em cada buraco! Que depois, podia apenas arrepender-se... O homem teria alma? pensava. Seria o corpo um fardo para o homem? aprofundava-se na questão. O cérebro, degenera-se?
Eis o seu grande medo: a degeneração gradativa do próprio cérebro. Diante de situações inadmissíveis, o cérebro tão vigoroso, tão capaz... O social não afeta as células, o corpo, o cérebro. Mas havia então o que se costuma chamar de mentalidade, pensamento, cultura, hábito, e por fim, e talvez mais simbolicamente para representar sem dúvidas o que se quer dizer, alma? Será?
Dostoievski, que era seu nome, renegou-se a deter-se tanto assim nestas questões, deicidiu-se aperfeiçoar-se em outras blocos de área de indagações profícuas meticulosas surpreendentes e bastante sensatas do ponto-de-vista linguístico-gramatical."
Patávalo
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