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"São poetas os que reviraram os olhos para dentro
Muito acima e abaixo do eixo do globo ocular
E num doloroso processo extremo
Ficaram a olhar de frente o próprio cérebro
Imensamente à procura de alguém que os ensinasse
A ser Locomotiva Algarismo Astro
Porque desde crianças que a isso aspiram
E não houve ninguém que finalmente tirasse disso partido
De uma vez pôr tudo em pratos limpos:
- Isto aqui não serve Isto aqui é para ser assim
De modo que ficaram todos à disposição
Mais coisa menos coisa
Dos terra-a-terra enfermos
De ter que dobrar a espinha na fábrica das munições azuis
E de irritar os poetas vermelhos
Do outro lado do planeta
Que por sua vez vinham na direcção inversa
De olhar as coisas sem olhos e com o próprio cérebro
Confiados que estavam na subtileza
De inventar conceitos com os dedos abertos
E, juntos, descobrindo-se uns aos outros inconfundíveis
Tentaram içar o mundo muito para além das Pirâmides
Muito para além da Aurora Boreal
- Sempre com o coiso adormecido -
E desataram a rimar Sonho com Matéria
(Dois mil anos depois
De terem rimado Maria e José debaixo da estrela)
Felizes por darem as mãos outrora atadas
E acordarem pássaros e instinto Sós
Mas logo Paris telegrafou a Moscovo
Que telegrafou a Washington
Que telegrafou a Londres
Que telegrafou a mim
Avisando-me para não repetir a asneira
(E escrever coisas lindas
Para se usarem coladas na boca neste Inverno.)"
Mario Osorio
http://fumodomeucigarro.blogspot.com/
domingo, 25 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Seu sorriso esvaía-se no que ele andava, uma pesada nuvem encobrindo o sol lentamente, sombreando a rude fachada do Trinity. Bondes passavam uns após outros, indo, vindo, retinindo. Palavras inúteis. As coisas continuam as mesmas; dia após dia: pelotões de polícia marchando para diante, para trás; bondes indo, vindo. Aqueles dois aluados acuados por aí. Dignam acarretado. Mina Purefoy barriga inchada num leito ganindo para ter um filho arrancado de dentro dela. Um nascido a cada segundo algures. Outro morrendo a cada segundo. Desde que dei de comer às aves faz cinco minutos. Trezentos bateram com o cu na cerca. Outros trezentos nascidos, relavados do sangue, todos são lavados no sangue do anho, mugindo maaaaaa.
Uma cidadada trespassando , outra cidadada chegando, trespassando também: outra chegando, trespassando. Casas, filas de casas, ruas, milhas de pavimentos, tijolos amontoados, pedras. Mudando de mãos. Este dono, aquele. O proprietário não morre nunca, dizque. Um mete-se no sapato do outro quando este recebe a ordem de deixar. Compram o sítio com ouro e ainda assim têm o ouro todo. Falcatrua nisso em algum ponto. Empilhados em cidades, gastados geração após geração. Pirâmides sobre a areia. Construídos de pâo e de cebolas. Escravos. Muralha da China. Babilônia. Pedras grandes deixadas. Torres redondas. O resto, entulho, subúrbios escarrapachados, assopapados, casas-cogumelos de Kervan, construídas de vento. Refúgio da noite.
Ulisses, J. Joyce. Civilização Brasileira, tradução: Antônio Houaiss, p-186
Uma cidadada trespassando , outra cidadada chegando, trespassando também: outra chegando, trespassando. Casas, filas de casas, ruas, milhas de pavimentos, tijolos amontoados, pedras. Mudando de mãos. Este dono, aquele. O proprietário não morre nunca, dizque. Um mete-se no sapato do outro quando este recebe a ordem de deixar. Compram o sítio com ouro e ainda assim têm o ouro todo. Falcatrua nisso em algum ponto. Empilhados em cidades, gastados geração após geração. Pirâmides sobre a areia. Construídos de pâo e de cebolas. Escravos. Muralha da China. Babilônia. Pedras grandes deixadas. Torres redondas. O resto, entulho, subúrbios escarrapachados, assopapados, casas-cogumelos de Kervan, construídas de vento. Refúgio da noite.
Ulisses, J. Joyce. Civilização Brasileira, tradução: Antônio Houaiss, p-186
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Matias chorão
"pára-brisa vascular morreu na noite do natal vespertino de lúcifer caído na noite serena. madrinhas de Sofia pegaram varinhas na mão das árvores de sorrendo. joões nadantes em lagos seculares de luas oculares. bifurcações petrolíferas nas noites sudoríparas (assim mesmo?) jorraram sangue em meu peito de animal destrinchado pela garra leonina. mentiras escritas sem tinta caminharam pelos átomos velozes multicores diante do céu negro, do outono de quatro trintas morreram sozinhos soldados sem cabeça com coração no pé descalço. gotas roséas nos olhos de cetim perfumado espírito de lebre morta pela raposa sem dentes para matar. luzes, luzes, velozes velozes caminhantes pela estradas sem letras plaquiticas no horizonte fumegante com amores odiosos sem chances grandes chances. só eles restaram para você meu bem, aceite e não reclame, solidão que te proclame o mais soberano de todos os servos servidores de agonias chatas pueris enfadonhas catástrofes pequenas nas riquezas absurdas alhures alguém vê. minhocas no asfalto azulejo brilhoso sujo vermes buritampos tangulares dentre as torres sem altura. piscou, errou, aaaaaahhhh!"
T.F.
T.F.
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