sábado, 24 de julho de 2010

quases

“A rua onde se localiza esta casa situa-se não muito longe do centro da cidade e talvez seu aspecto mais peculiar seja o tamanho, visto que – tratando-se de manter uma caminhada tal qual sua velocidade permaneça constante, embora não muito veloz, mas sim apenas um calmo andar flanante - não se demora muito em percorrer seu comprimento. Quando digo esta casa refiro-me a casa à qual se localiza também o quarto onde registro minhas observações acerca da rua onde se localiza esta casa que também abriga outras casas e cães de latidos vespertinos. O seu curto tamanho – que fora destacado – não pode ser descrito, especificado ou assinalado através da possibilidade de visão de uma extremidade à outra dela, a rua, visto ser tal possibilidade inexistente devido ao seu aspecto físico formal: a rua comporta-se de maneira a estabelecer uma concavidade exatamente na altura em que esta casa se situa e alinha-se em forma reta apenas num de seus começos ou fins – dependendo do referencial – e seu ponto íngreme se vê mais acentuado apenas numa terça parte de seu comprimento. Outra peculiaridade que talvez seja importante de ser registrada é a sua calmaria, não que tal característica seja de fato agradável ou desagradável, assim também como sua pequenez, mas demonstra apenas a pouca quantidade de meios de transporte a transitarem pelas suas concretudes, e claro, isto também não quer dizer que todos os meios de transportes sejam barulhentos, vale lembrar o caso dos navios. Pode até ser que a rua pelo dia todo fique repleta deles, sem eu mesmo me dar conta no meu profundo sono. A quantidade de terrenos sem construções não é muita, e tal fato tornou-se ainda mais evidente pelo soerguimento de novas moradas nos últimos meses, o que fez com que caísse pela metade o número de terrenos baldios, baixando de seis para três. Nela também existem algumas alegres arvorezinhas e uma simpática e bonita garota que mora há alguns metros acima desta casa deste meu quarto.
Ainda que esta rua, relativamente calma e pequena, não permita a passagem de muitos transeuntes – isto devido ser ela muito fora de mão e ser desnecessária ao uso que se possa fazer para o deslocamento de qualquer outro lugar a outro, portanto ser usada quase sempre apenas por quem tem como destino a própria rua-, ainda assim podem-se verificar visitas aos produtos produzidos (sim, produtos produzidos) diariamente pelas famílias ou pessoas inquilinas das fabricasas. De maneira involuntária ou inconsciente ou ainda inevitável, seja lá o que for, a todo o momento despeja-se para fora das casas sacolas de variadas cores e tamanhos, pretas grandes, brancas com logotipos de mercados e até mesmo amarelas, raras vezes verdes, azuis ou vermelhas, e sempre de plástico, quando não, são caixas de papelões, oriundas quase sempre de alguma mudança imobiliária. Estas sacolas aconchegam-se em compartimentos de metal erguidos ao alto com uma forma de caixa em sua extremidade e um suporte feito perpendicular à caixa apoiando-a, separando-a do chão. Ainda em alguns pontos da sarjeta observa-se a presença das sacolas. Chamamos de lixo os objetos internos da sacola. É interessante lembrar que bastante próximo a esta rua, verifica-se a existência de uma imensa estrutura fabripredial, com um nome escrito em vermelho designando uma fábrica de alimentos produzidos em larguíssima escala. Lá se trabalha para produzir de forma voluntária e consciente – evitável ou inevitável ou até mesmo necessária ou desnecessária, isto eu já não sei – alimentos como café, biscoitos e açúcar são sabidos serem produzidos devido ao cheiro que se sente de tais.
Acredito eu, ser a fábrica mais facilmente percebida pela sua estrutura do que pelo cheiro que produz. E olha que o cheiro é bastante disperso e há relatos de pessoas que moram muito distante da fábrica e ainda assim conseguem percebê-lo, porém o seu tamanho prevalece, sim a fábrica é enorme e sua marca espalhada por toda a cidade, talvez nestas extensões é que consista o seu tamanho prevalente. Devido à proximidade à nossa pequena rua, algumas pessoas que por ali passaram – pela fábrica – certamente já passaram por aqui também, e puderam sentir no ar do local o impregnante cheiro doce e enjoativo de milhares de bolachas. Já nas pequenas fabricasas desta rua, produtoras involuntárias etc., não se pode dizer o mesmo, pois muitas vezes não há cheiros e nenhuma curiosidade de experimentá-los, quando haviam, foi aguçada em mim por muito tempo. Mesmo assim, há interesse por parte de alguns nos produtos fabricaseiros. Não é raro acontecer que as sacolas se vêem utilizadas, isto é, encontram-se deslocadas e rasgadas e até mesmo, segundo alguns moradores, saqueadas. Como honestos donos de seus produtos, alguns moradores defendem sua mercadoria com coragem e braveza, indignando-se contra os indivíduos atrevidos prontos a se darem bem a suas custas. Sendo assim, permanecem em estado de alerta até o momento do caminhão recolhedor passar e resgatar seus produtos, vulneráveis aos fatos da vida da rua..
Podem-se identificar muito facilmente os seres cujos interesses se voltam aos produtos das fábricas. Muitas vezes estão em conjunto, são até mesmo casados, embora muitas vezes também estejam sozinhos ou têm filhos. Possuem meios de transporte que os levam sempre ao caminho que lhes foi escolhido ou mesmo eles escolheram, nenhum prescinde de seu corpo, alguns utilizam para além do corpo objetos com rodas que se aceleram com um gesto, todos sempre seguindo um caminho em busca de algum produto interessante e até mesmo, muitas vezes, necessário. Os produtos também seguem seus caminhos, de mãos em mãos, transformando-se em, cada lugar por onde passam, da terra às mãos, do dinheiro ao caminhão, do caminhão às embalagens, das embalagens aos rostos bonitos na TV daquela garota simpática que mora nalguma rua, nalguma casa, nalgum quarto, direto para mesa da casa da rua do mesmo quarto que é o daquele que dorme, fazendo a digestão, finalizada com uma limpada muito boa fétida pelo mesmo papel da embalagem da ração futuramente fecal humanimalvegetativa. Eis os caminhos do engravatado dirigido pelo sedan até mesmo ao empoeirado interessado no produto fabricaseiro restante junto ao pó de café já usado e que talvez vá parar nalguma barriga microorganismante da vida acabada em pó. Os obstáculos aos seus caminhos servem apenas para lhes tirar da aparente vidaassimesmo monótona sem muita graça a espera de uma morte sadia no paraíso celeste, qualquer erro do sistema basta para lhes tirar do sério: o pneu furado, o telefone sem bateria, um dia de chuva sem energia, senha esquecida, são tantos os problemas até o produto chegar ao fim, quando chega ao fim está pronto, pronto alimento para outros seres, vivos em sua pequenez tão relativa quanto à da rua.”

T.F.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

uma hora para a loucura e a alegria

Uma hora para a loucura e a alegria! Ó furiosos! Oh, não me confinem!
(O que é isto que me liberta assim nas tempestades?
Que significam meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos rugidores?)

Oh, beber os delírios místicos mais fundamente que qualquer outro homem!
Ó dolências selvagens e ternas! (Recomendo-as a vocês, minhas crianças,
Dou-as a vocês, como razões, ó noivo e noiva!)

Oh, me entregar a vocês, quem quer que sejam vocês, e vocês se entregarem a mim, num desafio ao mundo!
Oh, retornar ao Paraíso! Ó acanhados e femininos!
Oh, puxar vocês para mim, e plantar em vocês pela primeira vez os lábios de um homem decidido.

Oh, o quebra-cabeça, o nó de três voltas, o poço fundo e escuro – tudo isso a se desatar e a se iluminar!
Oh, precipitar-me onde finalmente haverá espaço e ar o bastante!
Ser absolvido de laços e convenções prévias, eu dos meus e vocês dos seus!
Encontrar uma nova relação – desinteressada – com o que há de melhor na Natureza!
Tirar da boca a mordaça!
Ter hoje ou todos os dias o sentimento de que sou suficiente como sou!

Oh, qualquer coisa ainda não experimentada! Qualquer coisa em transe!
Escapar totalmente aos grilhões e âncoras dos outros!
Libertar-me! Amar livremente! Arremeter perigosa e imprudentemente!
Cortejar a destruição com zombarias e convites!
Ascender, galgar os céus do amor que foi indicado para mim!
Subir até lá com minha alma inebriada!
Perder-me, se preciso for!
Alimentar o resto da vida com uma hora de completude e liberdade!
Com uma hora breve de loucura e alegria.


Walt Whitman,
tradução de Renato Suttana

sábado, 10 de julho de 2010

loja

' O velho criança azul vestido, azulzinho barato decadente como o próprio corpo que o veste. Ao amanhecer, acordado pela luz, de seu hábito supremo, acesa, pelo senhor deus servidor, encaminha-se ao seu ponto de sustento, tomado pela crença de ser especial - por ter tido a chance de permanecer num estado, crido sustentável, e bastante alegre a seu ver. Pois para ele o seu hábito esforçável bastante respeitável aos olhos corretos permite-o distinguir o verdadeiro trabalho e o verdadeiro costume amordaçante louco. Sim, ele realmente passa suas horas à espera da compassiva amizade ridiculante monetária; atravessa-se a rua e compra-se, resgata-se o perecível, o bastante, o apenas, satisfatório e nada mais. O tédio o consumiria?se talvez, de repente, dádivas alementares divinas suprissem todo o tempo perdido ao sustento geral, mas ele pode mais, o tédio o consumiria?sim, e o velho não conseguiria viver sem os seus, tão valiosos, "obinhas" e "tchauzinhos" acenantes cotidianos aos conhecidos amigos de mísera riqueza vital; visto ser necessário, - um sorriso distraído - ás regras plurisociopetetetetetetetéticas, toda tentativa de agrado cansado e esforçado, fingido jamais, - o velho realmente alegre é -, sente-se feliz em sua aparente compaixão iluminada, simpatia agradecida reciprocante. A espera, morbidez aguda, poisnãozando aos pcorcpozuínos, trocando organismos microscópicos papelares pelo corte certimento do calçado vaquífero coro, distribuinte de sua música boa aos ouvidos, demonstrante do progresso orgulhável da nação unida. Mas, o velho troca sim, troca seus organismantes substratos corporais externos eternos enterros retornantes do dinheiro pego nas ruas - julgantes apontantes dos ladrões ditos sujos entre os limpos velhos velhas e padres. O bêbado não registrou a tua grana porque só achou, uma, sujeira circular dourada na mão do velho.-.Não suportante da situação preeeescrita, o velho deu a redondinha, com aquele mesmo sorriso umpouquinhodiferente do mesmo menino faminto ganhador do prêmio da coxinha redondinha mandioquinha com carninha moidinha dada pela mãe na sua boquinha.'

T.F.