segunda-feira, 16 de maio de 2011

há uma alegria misturada com dor naquele fundo poço ali você pode ver? sim, não há cores, há desmontes, há céus, há universos com estrelas diversas que brilham a seu próprio modo, coméquepode? ah não sei como que você faz pra ficar ai do lado de fora, porque aqui tudo é tão denso, cada minuto é vivo e novo! ai fora eu já estive, é como se fosse nada visto agora aqui de dentro. depois que mergulhei fui afundando, não cada vez mais rápido, mas sempre diferente, em tantas direções sem parada nenhuma, sem tempo, sem espaço, apenas vendo observando e agindo ao mesmo, onde muitas vezes embriagado a noite se tornava dia e era a mesma alegria e frenesi. depois tiveram dias também de profundo tédio, momentos longos que me distanciavam daquela descoberta nova, um profundo sentimento de nada estar acontecendo mas que logo passava assim que eu percebia que ainda estava vivo e que aquele caminho descoberto não sei quando já não tinha mais volta. então, os tédios agora nunca são iguais, os desesperos também, o que os modifica talvez seja a vontade, vontade de mergulhar mais fundo no humano, no feroz, no indizível, vontade de submeter tudo a mim mesmo, vontade de novos perfumes, novas trilhas, vontade de novas vidas, vontade de mais nomes, de mais bocas, vontade de ser vários e esquecer o que era no instante passado. mas assim é que é, não há certeza, e a dúvida é só pra exercitar é só pra brincar com o coração que pulsa com sede, com ganância sempre em busca de nada e com a certeza da morte que também não é nada é só vida.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

"Lobos? São muitos.

Mas tu podes ainda

A palavra na língua

Aquietá-los.

Mortos? O mundo.

Mas podes acordá-lo

Sortilégio de vida

Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.

Mas se farão milhares

Se à lucidez dos poucos

Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.

E tu mesmo, raro.

Se nas coisas que digo

Acreditares."


Poemas aos Homens de nosso tempo - VIII

Hilda Hilst

sábado, 7 de maio de 2011

'só amar não basta.
não basta só amar?
pois eu digo que amar sozinho é que não basta.
dê um tiro em minha cabeça aquele que se bastou sozinho,
aquele que não suportou o desespero,
dê um tiro aquele que me impediu de atirar.
àquele que se sentiu ofendido por perversidades,
àquele que não ouve mas só pensa,
a máquina de processar o mundo e as suas loucuras.
pois nos deixem, nos abandonem,
gritaremos agora pra outros e mais adiante,
onde quem nos assiste espera pelo riso cínico,
e com olhar desconfiado nos encara esperando a cena acabar,
dezenas de atos, cantos e música ao fundo,
nos divertimos, nos dividimos, nos isolamos,
fundem-se fantasia e realidade,
os espelhos partem-se em mil pedaços
permanecendo os mesmos,
quebra-se o gelo com a fina ponta do escárnio,
mostra-se o profano,
um grito estridente jorra das profundezas do abismo...
...
...

continua