"A vida é apenas segredo.
Não há muito que saber.
Ninguém precisa saber
o que contém teu segredo.
É só um dizer de menos,
um nada mostrar de teu,
pois no que mostras de teu
já o mostras pálido e menos.
(É só um não revelar
do enigma que jaz no fundo,
e nunca atingir o fundo
no esforço de revelar.)
A vida é coisa e segredo
para o teu pouco saber:
ser o bastante saber
que há vida, coisa e segredo."
Renato Suttana
quinta-feira, 25 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
linha reta de um poema ilusório: não-eu, palavras são só palavras
'As cores dos meus olhos são sempre as mesmas, assim como as cores que as mãos tocam. Sentem apenas a quentura e a frieza da matéria mundana, as mãos. Tive a impressão, tempo atrás, de algo oposto, diverso, mas como se fosse ainda através de olhos e mãos. Não se dava no espaço e no tempo (era imediato), eram cores e sons mudos, gritos sombrios, vultos sutis e vagarosos que apenas de olhos fechados e ouvidos sonolentos eu pude perceber. Coisa percebida. Talvez porque não apenas um ou dois sentidos estivessem em ação, mas todos ao mesmo tempo. Unidade da visão, audição, olfato, tato e paladar. Eis o pensamento. O gosto das idéias eu sentia sublime vermelho, ouvia a voz doce do amor, selvagem era o perfume insuperável, visão ofuscada pela energia infinítica do Sol, música anil da natureza.
Sinto.
O coração dispara, ouço o cheiro respirar ofegante em meu leito.
Mas a ciência ainda vai provar tudo, você vai ver.
Devo esquecer sentimento, pensamento e crença, são inúteis. Au revoir!dores catastróficas.
Estou vivo ainda."
T.F.
Sinto.
O coração dispara, ouço o cheiro respirar ofegante em meu leito.
Mas a ciência ainda vai provar tudo, você vai ver.
Devo esquecer sentimento, pensamento e crença, são inúteis. Au revoir!dores catastróficas.
Estou vivo ainda."
T.F.
sábado, 20 de março de 2010
um cidadão comum
"Sempre subindo a ladeira do nada,
Topar em pedras que nada revelam.
Levar às costas o fardo do ser
E ter certeza que não vai ser pago.
Sentir prazeres, dores, sentir medo,
Nada entender, querer saber tudo.
Cantar com voz bonita prá cachorro,
Não ver "PERIGO" e afundar no caos.
Fumar, beber, amar, dormir sem sono,
Observar as horas impiedosas
Que passam carregando um bom pedaço
da vida, sem dar satisfações.
Amar o amargo e sonhar com doçuras
Saber que retornar não é possível
Sentir que um dia vai sentir saudades
Da ladeira, do fardo, das pedradas.
Por fim, de um só salto,
Transpor de vez o paredão."
Torquato Neto
Topar em pedras que nada revelam.
Levar às costas o fardo do ser
E ter certeza que não vai ser pago.
Sentir prazeres, dores, sentir medo,
Nada entender, querer saber tudo.
Cantar com voz bonita prá cachorro,
Não ver "PERIGO" e afundar no caos.
Fumar, beber, amar, dormir sem sono,
Observar as horas impiedosas
Que passam carregando um bom pedaço
da vida, sem dar satisfações.
Amar o amargo e sonhar com doçuras
Saber que retornar não é possível
Sentir que um dia vai sentir saudades
Da ladeira, do fardo, das pedradas.
Por fim, de um só salto,
Transpor de vez o paredão."
Torquato Neto
terça-feira, 16 de março de 2010
oceano pacífico
‘Sou uma mente delirante e um coração acelerado, nada mais que recordações de noites passadas, amores perdidos achados, carinho com bêbados e líquidos ardentes. Pâncreas, costelas, minha boca, meus cabelos, esqueça todo este resto contingente, só preciso deles pra fome, sede, e sexo também é bom. O que importa é o eu coração, eu mente. Bêbado sinto meu coração, caminho por entre as vozes, os choros e as canções de todos os bares; eu gosto do feio também, encontro carinho. Queria braços mais compridos, assim poderia espalhar os pedaços arranhados e alegres de mim por todo o mundo, mas, no entanto, pensando bem, é melhor assim como está, isso me permite se aproximar: cheiro no pescoço, mão nos cabelos, bocas na nuca, dentes na carne, copos emprestados. Minhas pernas reclamam, um dia pensaram em parar e o coração, autoritário e teimoso que é, gritou, se enfureceu e acelerou mais ainda o meu sangue. Fervido fiquei na bebedeira, toda energia concentrada apenas num único ponto, eis uma bomba. Explodindo por todos os lados tenho vivido, invento novos idiomas, conheço o mundo, encontro sua verdadeira alma. A mente uso no outro dia, só pra se expressar, mas também dói, cansa-me demais. Ora coração, ora mente, sou eu. Perturbação constante que me imobiliza, porém inquieto fico a beira de abismos diários, os quais imagens em seguida nunca poderiam descrever de forma exata. Ai!o cinema. Nada, nada. A mente é imensa demais, a queda nestes abismos me dilacera a todo momento. Meu Deus!peço-lhe apenas uma pequena distração pra me salvar. Mas não. Nada basta. Apenas meu coração sofrido. Mar tempestuoso e calmo; ora negro, chuvoso, ora límpido, colorido, onde me sufoco sem morrer.’
T.F.
T.F.
sábado, 13 de março de 2010
na madrugada
que se equilibra
em precárias luzes
rumino em silêncio
uma dor que nem sei
ao certo aonde dói
(se na manchete dos jornais
ou na indiferença do teu beijo)
carrossel desgovernado
girando dentro de mim
sem me levar a lugar nenhum
remôo calado
desassossegos que me inquietam
(não sei se pelo galo que não canta
ou se pela palavra que não vem)
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
que se equilibra
em precárias luzes
rumino em silêncio
uma dor que nem sei
ao certo aonde dói
(se na manchete dos jornais
ou na indiferença do teu beijo)
carrossel desgovernado
girando dentro de mim
sem me levar a lugar nenhum
remôo calado
desassossegos que me inquietam
(não sei se pelo galo que não canta
ou se pela palavra que não vem)
© Ademir Antonio Bacca
do livro: “Grito por dentro das palavras”
sexta-feira, 5 de março de 2010
ritual
"Pra que sonhar
A vida é tão desconhecida e mágica
Que dorme às vezes do teu lado
Calada
Calada
Pra que buscar o paraíso
Se até o poeta fecha o livro
Sente o perfume de uma flor no lixo
E fuxica
Fuxica
Tantas histórias de um grande amor perdido
Terras perdidas, precipícios
Faz sacrifícios, imola mil virgens
Uma por uma, milhares de dias
Ao mesmo Deus que ensina a prazo
Ao mais esperto e ao mais otário
Que o amor na prática é sempre ao contrário
Que o amor na prática é sempre ao contrário
Ah, pra que chorar
A vida é bela e cruel, despida
Tão desprevenida e exata
Que um dia acaba"
Cazuza
A vida é tão desconhecida e mágica
Que dorme às vezes do teu lado
Calada
Calada
Pra que buscar o paraíso
Se até o poeta fecha o livro
Sente o perfume de uma flor no lixo
E fuxica
Fuxica
Tantas histórias de um grande amor perdido
Terras perdidas, precipícios
Faz sacrifícios, imola mil virgens
Uma por uma, milhares de dias
Ao mesmo Deus que ensina a prazo
Ao mais esperto e ao mais otário
Que o amor na prática é sempre ao contrário
Que o amor na prática é sempre ao contrário
Ah, pra que chorar
A vida é bela e cruel, despida
Tão desprevenida e exata
Que um dia acaba"
Cazuza
agora sim
"Hoje eu descobri
a minha mais nova verdade
e ela me dizia
que eu não fazia
carinho
desculpe, meu benzinho
agora eu sei
o que você quer
uma mão no cabelo
e outra com cigarro.
e me pede, se emudece,
depois eu nem tô notando
seu sorriso na cara,
sempre natural.
talvez seja respeito."
T.F.
a minha mais nova verdade
e ela me dizia
que eu não fazia
carinho
desculpe, meu benzinho
agora eu sei
o que você quer
uma mão no cabelo
e outra com cigarro.
e me pede, se emudece,
depois eu nem tô notando
seu sorriso na cara,
sempre natural.
talvez seja respeito."
T.F.
por que a gente é assim?
"Mais uma dose? É claro!
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que quê a gente é assim?
Agora fica comigo
E não, não
Não desgruda de mim
Vê se ao menos me engole
Não me mastigue assim...
Canibais de nós mesmos
Antes que a terra nos coma
Cem gramas, sem dramas
Por que quê a gente é assim?
Mais uma dose? É claro!
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que quê a gente é assim?
Você tem exatamente
Três mil horas
Prá parar de me beijar
Meu bem, você tem tudo
Tudo prá me conquistar...
Você tem apenas um segundo
Um segundo
Prá aprender a me amar
Você tem a vida inteira
Baby!
A vida inteira
Prá me devorar...
Agora fica comigo
E não, não
Não desgruda de mim
Vê se ao menos me engole
Não me mastigue assim...
Você tem exatamente
Três mil horas
Prá parar de me beijar
Meu bem, você tem tudo
Tudo prá me conquistar...
Você tem apenas um segundo
Um segundo
Prá aprender a me amar
Você tem a vida inteira
A vida inteira
Prá me devorar..."
Cazuza, Frejat, Ezequiel neves
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que quê a gente é assim?
Agora fica comigo
E não, não
Não desgruda de mim
Vê se ao menos me engole
Não me mastigue assim...
Canibais de nós mesmos
Antes que a terra nos coma
Cem gramas, sem dramas
Por que quê a gente é assim?
Mais uma dose? É claro!
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que quê a gente é assim?
Você tem exatamente
Três mil horas
Prá parar de me beijar
Meu bem, você tem tudo
Tudo prá me conquistar...
Você tem apenas um segundo
Um segundo
Prá aprender a me amar
Você tem a vida inteira
Baby!
A vida inteira
Prá me devorar...
Agora fica comigo
E não, não
Não desgruda de mim
Vê se ao menos me engole
Não me mastigue assim...
Você tem exatamente
Três mil horas
Prá parar de me beijar
Meu bem, você tem tudo
Tudo prá me conquistar...
Você tem apenas um segundo
Um segundo
Prá aprender a me amar
Você tem a vida inteira
A vida inteira
Prá me devorar..."
Cazuza, Frejat, Ezequiel neves
quinta-feira, 4 de março de 2010
terça-feira, 2 de março de 2010
Grito mudo
“Quantos nós ainda restam? Os sapos estão bem vivos, difíceis de engolir. Ânsia. Inquieto, numa constante busca pelo meu coração sofrido, estou. Na lata do lixo encontrei meu único espaço. Era pequeno demais. Com a fantasia me vesti, finjo.
Sede profunda que me ama.
Agora, mudo os planos do dia. Finjo sofrer. Danço, imito sempre. Vida pesada feita da mais densa das imatérias.
Ah os inventores! Seus universais. Eu descubro, percebo. Percebo cinco dimensões, e minha dor é a crença de haver três. És jumento. Puxo com cordas de sangue o peso de rochas antigas. Vida, compaixão, compaixão. As rochas alheias são leves, de mentira. É mais fácil carregá-las. Amar é pouco. Minha doença são o mar e o céu, o sol e a lua, o universo íntimo. Sou poeta como um leproso. Poesia e lepra, irmãs. Lento meu relógio. Múltiplo demais o mundo. Não basta se calar. O cérebro é quem escreve! Quero apenas patas, pêlos, ouvidos, um grunhido pequeno. Água e pão. As grades que me prendem, onde estão? Condenado! Não há céu ou inferno antes ou depois. Existem, estão. Gritos mudos. Incômodo sutil. Antes não ser, morte não!
Fuga, fuga. Sim não-morrer, não viver. Não-morrer: altura de meu abismo.
Pedaços de coração pelo caminho, mas já me perdi por suas marcas, são tantas. Cruzam-se, formam novelos de linha infinitos. O poço de lágrimas ficou vazio. Sede, sede, sede. Onde buscar água? Ar pesado, pulmões explorados. Visão confusa. Sintomas de poesia maldita. És ingrata, cruel! Sou a planta que a lagarta come. Anjo castigado. Pecados muito caros, ninguém os compra. Piedade inimigos! Mar sem fim que me aflige, estou afogado sem morte. Bestas cruéis, insetos roedores. Pequenos parasitas que não me acabam. Oh! tempestades, galopes selvagens.
Amanhã fará sol e estou calmo.”
T.F.
Sede profunda que me ama.
Agora, mudo os planos do dia. Finjo sofrer. Danço, imito sempre. Vida pesada feita da mais densa das imatérias.
Ah os inventores! Seus universais. Eu descubro, percebo. Percebo cinco dimensões, e minha dor é a crença de haver três. És jumento. Puxo com cordas de sangue o peso de rochas antigas. Vida, compaixão, compaixão. As rochas alheias são leves, de mentira. É mais fácil carregá-las. Amar é pouco. Minha doença são o mar e o céu, o sol e a lua, o universo íntimo. Sou poeta como um leproso. Poesia e lepra, irmãs. Lento meu relógio. Múltiplo demais o mundo. Não basta se calar. O cérebro é quem escreve! Quero apenas patas, pêlos, ouvidos, um grunhido pequeno. Água e pão. As grades que me prendem, onde estão? Condenado! Não há céu ou inferno antes ou depois. Existem, estão. Gritos mudos. Incômodo sutil. Antes não ser, morte não!
Fuga, fuga. Sim não-morrer, não viver. Não-morrer: altura de meu abismo.
Pedaços de coração pelo caminho, mas já me perdi por suas marcas, são tantas. Cruzam-se, formam novelos de linha infinitos. O poço de lágrimas ficou vazio. Sede, sede, sede. Onde buscar água? Ar pesado, pulmões explorados. Visão confusa. Sintomas de poesia maldita. És ingrata, cruel! Sou a planta que a lagarta come. Anjo castigado. Pecados muito caros, ninguém os compra. Piedade inimigos! Mar sem fim que me aflige, estou afogado sem morte. Bestas cruéis, insetos roedores. Pequenos parasitas que não me acabam. Oh! tempestades, galopes selvagens.
Amanhã fará sol e estou calmo.”
T.F.
Sou espetáculo do circo
“O leão na jaula maltratado
Espera pelo fim calado,
Magro, jovem,
Ao inimigo foi entregue,
Sua maldição é não saber.
Grite, urre,
Encrave os dentes na carne impune.
Venderam sua selva,
Plantaram cruéis troncos de ferro.”
T.F.
Espera pelo fim calado,
Magro, jovem,
Ao inimigo foi entregue,
Sua maldição é não saber.
Grite, urre,
Encrave os dentes na carne impune.
Venderam sua selva,
Plantaram cruéis troncos de ferro.”
T.F.
Quando não mais cifras e figuras...
“Quando não mais cifras e figuras
Forem as chaves das criaturas,
E os que vivem de sons e de amores
Mais entenderem do que os doutores,
Quando este mundo se der à vida,
E nós a sua imagem mais querida,
Quando de novo as trevas e o claro
Parirem tal dia assim tão raro
E o homem com cantos, poesias,
Reouver no mundo a vera via,
Bastará um sussurro, um só segredo:
E o mundo sairá de seu degredo.”
Novalis
Forem as chaves das criaturas,
E os que vivem de sons e de amores
Mais entenderem do que os doutores,
Quando este mundo se der à vida,
E nós a sua imagem mais querida,
Quando de novo as trevas e o claro
Parirem tal dia assim tão raro
E o homem com cantos, poesias,
Reouver no mundo a vera via,
Bastará um sussurro, um só segredo:
E o mundo sairá de seu degredo.”
Novalis
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