quinta-feira, 30 de maio de 2013

buñuel e dali



"As palavras, as árvores e o som dos pássaros caminhavam como amigos dentro da cabeça do Senhor C.. Além disso livros, livros e mais livros; ele vivia deles assim como vivia dos alimentos e do ar. No entanto era sozinho e possuía um distinto dom de silenciar-se perante os outros; todas as vezes que alguém lhe tinha palavra ele não mais fazia que um gesto monossílabo quase imperceptível deixando o outro levá-lo por louco ou pessoa absolutamente estranha. Sendo assim, Senhor C. não havia colecionado tantos amigos durante a vida, pois até mesmo o que se poderiam chamar de mais próximos não tinham opinião bastante solícita a seu respeito e ele mesmo pouco se importava, o que ao menos se esperava do Senhor C. era o fato de ele lembrar o nome dos supostos colegas e isso ele lembrava, pois sempre que tais colegas o cumprimentavam num encontro casual ele logo após o cumprimento, fosse "Bom dia", 'Olá", ou "Oi" o cumprimento, dizia o nome do indicado colega.
Houve um dia, porém, após chegar de um botequim, coisa que era raro cometer, embriagado, não encontrava a chave para abrir o portão da casa. Embaralhou-se todo a procurar nos bolsos, no paletó, na valise que carregava sempre e nada da chave se mostrar. Em nenhum lugar de seu corpo tremelicavam as chaves. Sua angústia talvez diminuíra ao se convencer de que havia perdido as chaves; não havia outra reação dele a não ser a de suspirar profundamente e soltar de forma lenta o ar pela boca fazendo um pequeno bico com os lábios quando concluía qualquer tipo de raciocínio. E sentia-se angustiado a pensar: "o que farei agora com a nova descoberta?"."



T.F. (O Patávalo)














terça-feira, 28 de maio de 2013

gertrude stein



"A maior parte do tempo tempo gasto trabalhando. A maior parte do tempo tempo gasto mendigando. A maior parte do tempo tempo corrigindo o que não está errado. A maior parte do tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo. Tchau, professor! Tchau! Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau. Tchau tchau tchau tchau tchau.'


T.F.

domingo, 5 de maio de 2013

o cavalo-marinho


"Sou como o cavalo-marinho,
que é algo assim como se comesse os filhos
até que cheguem a idade adulta."


Patávalo

sábado, 4 de maio de 2013

meu amigo chamado Castor



"O meu amigo chamado Castor emprestou-me um paralelepípedo pesado. Castor tem as roupas velhas e nunca as lava, vivem amassadas sujas e furadas. O meu amigo Castor caminha falando bastante, mas sozinho, não se poderia dizer que ele anda à toa, não. Ele anda ocupado com problemas cuja resolução talvez nunca se atinja, mesmo assim Castor se contenta com as possíveis resoluções que encontra. Quando conta até três, Castor o faz para conter sua paixão, isto é, o faz para não puxar a saia ou as roupas de baixo que passam por ele nas garotas ao lado. Ele sente uma atração muito forte por garotas jovens, magras e de pele macia. Castor garante que é lúcido e inteligente. Castor reconhece as doenças da sociedade. Castor conhece também as digressões da história e se conforma muito pouco com certos acontecimentos. É tanto a sua revolta que prefere não se deter muito, pois irrita-se. Castor foi mordido por uma cobra um dia, sorte que não era venenosa. Castor certo dia embriagou-se e envolveu-se em briga, sorte que amigos o ajudaram. Sim, Castor tem amigos que gostam muito dele. Seus amigos compartilham de poucos gostos comum com ele, porém isso não é obstáculo para que possam passar algumas horas juntos distraindo-se mutuamente. Talvez o grande desastre da vida de Castor seja não ser teimoso. Castor é apático e nunca imaginou chegar à presidência. "



Patávalo