quinta-feira, 27 de outubro de 2011
abaixei a cabeça e apenas ouvi aquelas palavras horrendamente torturantes à espera de uma boa resposta pr'aquele velho nojento. não fui capaz. o silêncio me tomou e saí. caminhei, caminhei, à procura de inspiração, à procura de idéias e palavras para um verso bem ritmado e consistente. mas, nada, nada. pensei: talvez seja verdade mesmo o que disse o velho, há quanto tempo que não escrevo sequer uma linha decente, digna, respeitosa. melhor desistir mesmo de toda essa bobagem e parar de sonhar em ser poeta de verdade um dia. e de tudo o que já escrevi, quantas vezes li e reli e julguei ser um lixo toda aquela baboseira sem sentido e sem nexo algum. quem ouvirá, quem lerá os meus versos e se surpreenderá com aquilo dizendo "uau, ora, um poeta de verdade vejo aqui!" duvido muito, muito mesmo. bosta de poemas, bosta de vida, perda de tempo. que tal começar a estudar as bases da escrita, aprender um idioma, ou qualquer coisa do tipo, para pelo menos estar habilitado a fazer qualquer ousadia nessas aventuras poéticas.
mas, não. ainda por cima sou preguiçoso. não consigo cruzar totalmente a ponte que iniciei e às vezes sinto medo. ingênuo, estúpido, altametne inocente. covarde. incapaz de ir até o fim em confrontos que se iniciam. acabo deixando pra lá, ignorando por medo. e eles riem de mim, sim riem muito. meus inimigos. sou fraco. bobo.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
working in progress!! (opa, plágio!)
de maneira alguma minha intenção era ao começar a escrever este texto a de elaborar uma suposta sinopse do livro. a identificação que encontrei nessa obra e a angústia própria dela é que me levou a escrever. a dúvida sobre a qualidade de minha escrita. a cobrança sobre mim mesmo. a exigência de algo digno de se ler. os extremos disso tudo me torturam. cobro-me competência e dedicação. o que faz de um escritor um escritor? o que faz de um verdadeiro artista um artista? já li inúmeros livros. poesia, prosa, romance, filosofia, história. muita coisa, muita. de todos gêneros possíveis. mas e aí? e agora? e junto com tudo isso o mundo. as cidades. a minha cidade. a minha casa. a minha vida. os meus problemas, os problemas dos outros. o que fazer? começar a elaborar o meu projeto de TCC? um começo possível. profissionalmente falando era o que de mais urgente eu deveria fazer. mas não. teimoso que sou, insisto numa suposta carreira vindoura de escritor assim como arturo bandini o personagem de john fante.
tenho amigos. muitos deles. gosto deles, gosto de conversar. tenho poemas escritos também, mas que logo caíram em mau uso por mim mesmo, venho percebendo que foi uma grande tolice tantas páginas escritas em versos. porra, eu não sabia nem rimar, não soube, não sei. pede-me pra fazer um soneto? mando enfiá-lo no rabo. versos alexandrinos, o que é isso? sim, não sou estudado quanto a isso. tive péssima escola cultural. e não era o melhor aluno em literatura ou português. adolescente sem grandes crises, gostava de ler, mas não muito. só na faculdade mesmo é que essa paixão veio à tona. desde o primeiro dia com as dores do mundo de schopenhauer até hoje foram mais de 200 livros emprestados, talvez nem a metade lida, mas certamente um breve conhecimento. escrevi também. tive trabalhos de faculdade elogiáveis. outros não fiz. outros colei da internet. outros fiz nas coxas mesmo. conto-lhes um segredo. a maioria dos professores não sabe dar aulas. bem baixinho. são enfadonhas suas aulas. são dogmáticos. orgulhosos e quase nunca divertidos. sim, algumas aulas foram magistrais. mas de uns tempos pra cá um fardo tem sido o camniho até a faculdade, a não ser pelo motivo de ver algumas garotas e ter a chance de encotrar aquela de quem realmente eu gosto. mas isso é pra outra hora. hoje porém sinto. algo nobre vem constantemente crescendo em meu espírito. os romances são bastante familiares agora. não é como antes. sinto cada vez mais uma forte paixão pelos livros. o cinema vai ficando pra trás. e as tentações da cidade começam a se tornar fúteis. e sinto-me protegido. reconheço pelos olhos as pessoas. não perco mais tempo talvez com preocupações tolinhas. mas sim penso todo dia em poesia, em escrever e nela, sempre nela. os romances são prazerosos de serem lidos, dostoievski, joyce, rimbaud, nietzsche, guimarães. sim, estes sim merecem um lugar especial. são grandes.
e uma passagem de joyce lida na marugada passada. o retrato do atrista quando jovem a obra do começo do século. há quase cem anos, pouco menos. e hoje, agora, eu, eu escrevendo. com meu vocabulário limitado. com outro meio. computadores naquela época jamais. acho que nem a palavra "computer" era muito usada. hoje essa merda aqui. talvez tenhamos um saudosismo quanto a isto. quanto a epocas em que a tecnologia não nos dominava tanto. e as pessoas talvez fossem menos neuróticas e apressadas. menos sedentas de informações. menos obsessivas. talvez a própria linguagem tenha se alterado. os costumes mesmo. a forma de ensinar nas escolas. o respeito pelos professores. ora, mas o que estou dizendo aqui. isso não é nada impossível de se recuperar. basta que paremos de reclamar um pouco e tomemos alguma atitude efetivametne. comecemos por exemplo a ler..hehehe, e daí pra frente inovações liguisticas amparadas pelo passado podem se tornar bastante viáveis. e a obra de joyce por exemplo ser bastante notável. sendo referência em escolas. avante! criemos uma corrente um movimento literário hoje. de recuperação da cultura. através da inteligência e do humor. agradeço, agradeço...
é claro que estes escritos estes aqui mesmo.. parecem bastante convencionais e inteligíveis. qualquer pessoa quer tenha um pouco de paciência em leitura consegue ler e entender tudo que escrevo aqui. a desculpa de letra feia não tem como. vamos identificar isso aqui como um relato de alguém viajando pelo espaço e nossa nave é a terra. como naquele programa do carl sagan. tenho tantos outros relatos guardados. cada bizarrice flagrada de forma quase cruel. mas sem esquecer a regra de que o artista deve criar a beleza.
sábado, 15 de outubro de 2011
suicídio
Alguém disse: “Não, você não pode se matar”.
E eu disse: “Não posso? Então que mata-me alguém...”
E ninguém se propôs.
Olhei para meu sobrinho de nove anos e ordenei: “Mata-me!”.
E ele começou a me enforcar com as mãos.
E eu disse: “Não, quero com tiros, uma arma!”
E ele me matou com as mãos com uma arma gritando: “BANG BANG!”.
Palhaço
terça-feira, 4 de outubro de 2011
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
Autopsicografia
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele têve,
Mas só a que eles não têm.
E assim ans calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração."
Fernando Pessoa
quinta-feira, 16 de junho de 2011
dança criança
De propósito,
Mas pagou o preço:
No começo desespero,
Ficou sem chão,
Sem abrigo, sem comida,
Mas não morreu.
E nunca mais encontrou a mãe,
Talvez nem a reconheceria,
Pois a havia esquecido.
A onda de desespero se fora faz tempo.
E agora ela descobria por si mesma
Estrelas,
Novas dores e sussurros amorosos.
Mãe era silêncio.
Mãe eram pessoas desconhecidas,
Sonhos,
Mães por toda parte.
Cert dia conheceu a liberdade,
Mulher delirante,
Mãe da verdade.
Rainha, esposa do amor.
Da liberdade
A criança tirou graça,
Fez-se inocente novamente.
E das palavras tomou conta,
Pareando com o amor,
Numa dança incestuosamente sedutora."
T.F.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Tabacaria
- Álvaro de Campos, 15-1-1928
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."
segunda-feira, 13 de junho de 2011
dicas. observações. poema insinuante. tanto faz, quando nunca se fez.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
A gargalhada
Uma taça de cólera
A menina que dormia
quinta-feira, 9 de junho de 2011
As árvores sem frutos
segunda-feira, 16 de maio de 2011
quinta-feira, 12 de maio de 2011
"Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares."
Poemas aos Homens de nosso tempo - VIII
Hilda Hilst
sábado, 7 de maio de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Os deuses
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Dos buracos fiz abismos
quarta-feira, 13 de abril de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
TRÊS POEMAS DO AMOR
segunda-feira, 11 de abril de 2011
o gato negro
Leia-se Leminski
antiquados
Lógica
quinta-feira, 7 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
Caminho até seus olhos
Distraídos
Dor
quarta-feira, 16 de março de 2011
testemunha
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
mal nenhum
Por que não me deixam em paz?
As guerras são tão tristes
E não tem nada demais
Me deixem, bicho acuado
Por um inimigo imaginário
Correndo atrás dos carros
Como um cachorro otário
Me deixem, ataque equivocado
Por um falso alarme
Quebrando objetos inúteis
Como quem leva uma topada
Me deixem amolar e esmurrar
A faca cega, cega da paixão
E dar tiros a esmo e ferir
O mesmo cego coração
Não escondam suas crianças
Nem chamem o síndico
Nem chamem a polícia
Nem chamem o hospício, não
Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim"
Cazuza/Lobão
blues da piedade
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem"
Cazuza/ Roberto Frejat
domingo, 6 de fevereiro de 2011
o morto
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!
Mário Quintana
simultaneidade
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo (Poesia Completa, p. 535)
bilhete
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho,
amada,
que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.
Mario Quintana
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Você.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.
Hilda Hilst
sábado, 29 de janeiro de 2011
um amorista
tá me ouvindo?
eu perguntei se você tá me ouvindo
pois me ouça então,
te direi quem sou,
ouviu bem, eu descobri quem sou,
com toda a certeza do mundo te digo
sou um amorista
um apaixonado pela vida,
com toda sua dureza e crueldade,
com todo seu prazer e dor encarnados.
enfincados no peito espinhos,
e uma fenda aberta
por um coração nutrido de esperança e alegria,
faz-me vivo,
apaixonado pela vida,
um amorista.
T.F.
(ainda pode ficar melhor, mas a necessidade e vontade de dizer já bastou para o post)
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
o mundo estava no rosto da amada
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.
Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?
Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei."
R. M. Rilke (tradução: Augusto de Campos)
Não consegue viver sem a órbita de seus planetas no sistema só pra ele.
Ele exige que estes planetas se iluminem apenas por sua luz
E não quer saber da luz fraca e distante de supostas estrelas.
E vemos tantas no cèu de noite enquanto dormes, belo sol,
Porém não deixe de lembrar de tuas forças e calor,
A tua distância próxima e contagiante, que a todo momento ofusca olhos pequenos,
Desvia a própria luz.
As outras estrelas estão mortas,
Os planetas a tua volta não precisam delas,
São apenas pontos brilhantes distantes,
Não passam de fracas lembranças.
Apenas com máquinas, telescópios e muita curiosidade podemos vê-las,
Mas não sentimos o seu calor, o seu toque, a sua capacidade de criar vida,
O teu silêncio.
Sol, apenas brilhe e exploda sempre, quieto, sem palavras,
Não precisa provar a tua força,
Pois até mesmo as luas de teus planetas,
É você quem as ilumina.
T.F.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
A flor e náusea
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma conta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária do erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul o mesmo da minha infância ,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"
(Álvaro de Campos)
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
(Alberto Caeiro)
profundo, intenso
há um pano de fundo que eu não sei, é tão intenso,
se eu digo raiva, calma ou solidão,
é pra mostrar qualquer coisa que não se vê
não se vê não,
não se vê que eu tenho um coração
tão triste a pulsar de alegria,
não se vê que pra andar na contramão
não é fácil, não é mole não
que se há um buraco só nesse caminho
há ali um poço,
um poço de paixão.
T.F.
conversas
Depois fui ao médico, que me receitou remédios pra tosse.
Também vi alguém com roupa bonita, tipo terno, indo pra algum lugar, mas não conversei.
E depois conversei com outro amigo meu, esse contava piadas e vivia preocupado com o futuro.
Depois ainda conversei com outro que me chamou de louco.
Depois ainda conversei com outro que em cinco minutos me entediou e vi que estava o mesmo.
Daí lembrei de alguém com quem conversei que era igual a mim
Conversei muitas vezes com este, não lembro o que conversamos
Só sei que foi sempre um prazer conversar com ele,
Sobre carros, futuros, mulheres e até mesmo dinheiro
Daí a gente esquece tudo
E depois eu volto pra casa e não converso com ninguém.
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
(Alberto Caeiro)
poema em linha reta
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Álvaro de Campos)
