segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

‘ Minha boca de aventura,
tantas delícias que guardou.
Flores não mascou
Na boca bêbada da loucura.

Um ácido prazer achei
No lugar do carinho doce.
Na ingênua beleza encontrei
Um lugar pra fazer pose.”

T.F.

Jovem

"Jovem, bicho revoltado
Mamãe roubou suas revistas
De sacanagem
Jovem, papai tá ocupado
Não é só você
Que come a empregada
Jovem, você tá muito avançado
Seus amigos desconfiam
Que você é veado
Antigamente era mais fácil
Ser a grande novidade
Você vai ser alistado pela faculdade
Jovem, não vai chegar tarde
A sociedade está pronta pra ligar o alarme
Jovem, seu primeiro amor
Acabou de repente no elevador
Jovem, você também votou errado
Porque não viu que o futuro
Às vezes repete o passado
E o mundo inteiro parece escapar
Entre os seus erros
Lavando a cara de manhã
Pergunta pro espelho
Afinal, quem é você
Jovem, a grande novidade
Jovem"

Cazuza

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

apenas um breve encontro de olhares. eu não-eu

‘Mergulhei no vácuo poço do prazer que se encontrava metafísico no espaço que nos dividia. Olhei-me na sua vontade espontânea; minha imagem era selvagem; deixava transparecer a luminosidade de chamas enérgicas acumuladas do fundo do vulcão, como se a lava de outras faculdades tivesse transmigrado para uma só. O espelho, vulnerável, era brando e límpido. A toda reação de meu corpo, uma tempestade transparente se formava ante mim. Minha mão serviu como pedra para desmanchar toda a aparente calma do líquido espelho; as chamas que uma vez o moldaram, como fogo em palha seca eu as reascendi. Minha pele era fogo espesso, e os galhos no caminho ficaram. ‘

T.F.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

sorriso interior

" O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo este brasão augusto
Do grande amor, da grande fé tranqüila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe esta glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!"

Cruz e Souza

meu anjo

"Meu anjo tem o encanto, a maravilha,
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.


Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto.
É leve a criatura vaporosa
Como a froixa fumaça de um charuto.


Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.


como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!


Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!"

Álvares de Azevedo

por que mentias?

"Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?


Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro...
Leviana sem dó, por que mentias?


Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!


Vê minha palidez - a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito!
Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?"

Álvares de Azevedo

o ébrio

"Bebi! Mas sei por que bebi!... Buscava
Em verdes nuanças de miragens, ver
Se nesta ânsia suprema de beber,
Achava a Glória que ninguém achava!

E todo o dia então eu me embriagava
- Novo Sileno, - em busca de ascender
A essa Babel fictícia do Prazer
Que procuravam e que eu procurava.

Trás de mim, na atra estrada que trilhei,
Quantos também, quantos também deixei,
Mas eu não contarei nunca a ninguém.

A ninguém nunca eu contarei a história
Dos que, como eu, foram buscar a Glória
E que, como eu, irão morrer também."

Augusto dos Anjos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

BASTA!

Tá faltando imaginação. Cadê a imaginação? Imagem mais ação. Imaginação. Não, não, é imagem e ação, não, não, também não é isso. É imagem com ação. Mas ação não corpórea, ação auto-produtora absoluta, que se cria ao mesmo tempo que foi vivida e que se cria porque antes foi vivida, e observada, guardada foi na memória, daí a gente imagina tudo, porque viveu um pouco tudo o que imagina. São associações de idéias criadas na memória, idéias ocasionadas pela vivência, e que se mesclam, a gente mescla, imagina, e sonha, e consegue amar melhor com isso. Pronto. Morri de tanto imaginar que eu não conseguia imaginar nada.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

'O fogo lá da vela, lá da vela é o eterno coringa do jogo.'

Raul Seixas
““ Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri

Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar

Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim? ”

Fernando Pessoa

novos céus

‘sozinho fiquei de novo,
a olhar as estrelas
que se cruzam no céu de meu pensamento,
nada me distrai destas estrelas
os seus traçados têm brilho repentino,
e dão lugar a outras estrelas
será também outro céu?
O universo que são as pessoas
Me atrai para pensar aonde vão,
Quais serão as estrelas que brilharão em seu céu?’

T.F.

sem nada

‘nada mais a escrever,
quero calma e paz, apenas ver.
E esse mesmo desejo é o que me entristece,
Porque eu sei que é disso que vou escrever.’

T.F.
‘o sol continua a brilhar
mesmo se do calor eu reclamar,
e se eu apreciar o seu brilho,
amanhã o sol pode querer não brilhar,
e eu voltarei a reclamar:
quero o calor do sol a me queimar,
mas ele não me dará ouvidos.’

T.F.

quando penso

‘quando penso
abro bem os olhos e vejo as cores que pintam o infinito,
olho para nada e para tudo ao mesmo tempo,
e sei que vejo, ouço
essa coisa que não existe,
que passa como fantasmas pela mente,
que me distraem e me fazem esquecer do sono,
minha atenção se volta apenas para cada minúsculo ponto de lembranças enterradas,
É tão rápido!
então o tempo deixa de ser importante,
De tão repentina que me vem,
E logo some, cruza meu céu
Estrelas cadentes que inspiram
idéias cor de mel’

T.F.

fragmento, assistemas

'O labirinto numa linha reta'

aluno de estética(romantismo com Schlegel)