domingo, 25 de abril de 2010

Os poetas vermelhos

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"São poetas os que reviraram os olhos para dentro
Muito acima e abaixo do eixo do globo ocular
E num doloroso processo extremo
Ficaram a olhar de frente o próprio cérebro
Imensamente à procura de alguém que os ensinasse
A ser Locomotiva Algarismo Astro
Porque desde crianças que a isso aspiram
E não houve ninguém que finalmente tirasse disso partido
De uma vez pôr tudo em pratos limpos:
- Isto aqui não serve Isto aqui é para ser assim
De modo que ficaram todos à disposição
Mais coisa menos coisa
Dos terra-a-terra enfermos
De ter que dobrar a espinha na fábrica das munições azuis
E de irritar os poetas vermelhos
Do outro lado do planeta
Que por sua vez vinham na direcção inversa
De olhar as coisas sem olhos e com o próprio cérebro
Confiados que estavam na subtileza
De inventar conceitos com os dedos abertos
E, juntos, descobrindo-se uns aos outros inconfundíveis
Tentaram içar o mundo muito para além das Pirâmides
Muito para além da Aurora Boreal
- Sempre com o coiso adormecido -
E desataram a rimar Sonho com Matéria
(Dois mil anos depois
De terem rimado Maria e José debaixo da estrela)
Felizes por darem as mãos outrora atadas
E acordarem pássaros e instinto Sós

Mas logo Paris telegrafou a Moscovo
Que telegrafou a Washington
Que telegrafou a Londres
Que telegrafou a mim
Avisando-me para não repetir a asneira

(E escrever coisas lindas
Para se usarem coladas na boca neste Inverno.)"


Mario Osorio
http://fumodomeucigarro.blogspot.com/

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