terça-feira, 2 de março de 2010

Grito mudo

“Quantos nós ainda restam? Os sapos estão bem vivos, difíceis de engolir. Ânsia. Inquieto, numa constante busca pelo meu coração sofrido, estou. Na lata do lixo encontrei meu único espaço. Era pequeno demais. Com a fantasia me vesti, finjo.
Sede profunda que me ama.
Agora, mudo os planos do dia. Finjo sofrer. Danço, imito sempre. Vida pesada feita da mais densa das imatérias.
Ah os inventores! Seus universais. Eu descubro, percebo. Percebo cinco dimensões, e minha dor é a crença de haver três. És jumento. Puxo com cordas de sangue o peso de rochas antigas. Vida, compaixão, compaixão. As rochas alheias são leves, de mentira. É mais fácil carregá-las. Amar é pouco. Minha doença são o mar e o céu, o sol e a lua, o universo íntimo. Sou poeta como um leproso. Poesia e lepra, irmãs. Lento meu relógio. Múltiplo demais o mundo. Não basta se calar. O cérebro é quem escreve! Quero apenas patas, pêlos, ouvidos, um grunhido pequeno. Água e pão. As grades que me prendem, onde estão? Condenado! Não há céu ou inferno antes ou depois. Existem, estão. Gritos mudos. Incômodo sutil. Antes não ser, morte não!
Fuga, fuga. Sim não-morrer, não viver. Não-morrer: altura de meu abismo.
Pedaços de coração pelo caminho, mas já me perdi por suas marcas, são tantas. Cruzam-se, formam novelos de linha infinitos. O poço de lágrimas ficou vazio. Sede, sede, sede. Onde buscar água? Ar pesado, pulmões explorados. Visão confusa. Sintomas de poesia maldita. És ingrata, cruel! Sou a planta que a lagarta come. Anjo castigado. Pecados muito caros, ninguém os compra. Piedade inimigos! Mar sem fim que me aflige, estou afogado sem morte. Bestas cruéis, insetos roedores. Pequenos parasitas que não me acabam. Oh! tempestades, galopes selvagens.

Amanhã fará sol e estou calmo.”

T.F.

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