domingo, 3 de junho de 2012
consideração a respeito da escrita
"Há diferenças que são claras em prosa e poesia, você percebe isso quando acredita ter escrito um poema, mas que na verdade, ao lê-lo, tempos depois, torna-se uma pequena prosa, que poderia muito bem fazer parte de uma prosa maior ainda, uma narrativa, uma cena descrita num capítulo de livro. Essas pequenas nuances e particularidades, acredito eu, fazem parte da construção formativa de um escritor, que acaba no fim das contas, confundindo e até mesmo deixando de lado essas diferenças que se fazem ver entre prosa e poesia. Para um leitor atento, um pequeno verso pode servir de porta e base para um caminho que ele fará por si mesmo após aquela leitura, ele conseguirá imaginar perfeitamente o que se passava na cabeça do autor e poderá configurar com precisão o desenlace e o redor que aquele verso abrangia logo que escrito. Assim, uma grande obra, não se encerra nela mesma, não pode se encerrar, ela sim é apenas uma parte de uma vasta sensibilidade que precisou de muitas dúvidas até chegar ao término do projeto acabado. O grande autor é incansável e absoluto, no seu tempo tudo é consumido, tudo deve passar pelo seu ser sensitivo, ele não deixa passar nada, ele ao mesmo tempo faz um recorte e também não o faz, porque não muda as coisas, mas associa as coisas, cria uma espécie de lógica própria para os objetos ao seu redor, pode combinar cores, palavras, fatos; e o que faz todo este conjunto, toda esta matéria-prima bruta e mundana comungarem entre si é a capacidade do autor de não se desprender, é a capacidade de mergulhar no espaço e no tempo como se mergulhasse num lago e movesse toda a sua água mudando a configuração das ondas, é assim que se coloca no mundo o grande autor, ele é capaz de tocar a realidade, tocá-la para si e daquele instante regozijar-se em ter criado um sistema próprio, um conjunto onde tudo está interligado, com a consciência, modesta consciência, de que na verdade o que fala é uma criação, fictícia, e sua angústia é saber e ter certeza de quão frágil é aquilo que o sustenta."
T.F.
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